A aldeia ficava bem no meio das encostas de montanhas altas redondas e cheias de vegetação. O povo era simples, viviam de pequenas plantações e algum gado. Era difícil manter gado, pois o solo era íngreme bem alterado e, quase sempre um boi ou uma vaca despencava da estrada. Criavam mais galinhas, porcos e algumas ovelhas. A vida era muito simples e de muito trabalho. Todos tinham suas tarefas até as crianças. Existia apenas uma igreja na cidade a qual freqüentavam todos principalmente aos domingos, dia de menos trabalho.
Tudo era muito pacato naquela cidade até que começaram a surgir estórias sobre um tal pássaro, o Urui. O que contavam era que o tal pássaro, grande de cor azulada e bico muito afiado, gostava de arrancar os olhos de bichos e de pessoas também. Foi o bastante para que os pais, preocupados com suas crianças, proibissem seus filhos de irem mais longe do que o pátio de casa.
Os filhos acostumados a irem para as montanhas, nadar nas nascentes ficaram muito tristes com a tal estória. Certo dia, Elias que era um rapazinho já nos seus doze anos, convidou dois amigos e resolveram tirar isto a limpo. Foram até lá procurar o tal pássaro. Assim sendo, uma manhã ao invés de irem levar a carroça de feno para o posto onde deviam ir, pegaram o caminho de uma das montanhas.
Embrenharam-se pela vegetação falando e imaginado o que poderiam encontrar. Não sentiam medo, mas usavam bonés para em caso de um ataque do pássaro esconderem os olhos. Andaram bastante e ficaram cansados. Resolveram descansar embaixo de uma frondosa e enorme arvore. Haviam levado pão e lingüiça e começaram a comer. Quando já estavam satisfeitos, recostaram-se e tiraram um cochilo.
Todos estavam quase dormindo, menos Elias que ficara atento. Daí percebeu que alguma coisa se aproximava. Ficou alerta. Esperou e não disse nada.
- Será, meu Deus, que é ele?
Assim ficou quietinho e viu quando um pássaro desceu da árvore e veio até o chão comer as migalhas de pão. Ficou quietinho e observou bem o pássaro. Grande quase de cor preta, era um azul bem escuro, pernas longas, bico grande e comprido. Mas e os olhos? Credo, quase nem se via os olhos de tão pequeninos!
Começou então a notar a dificuldade do pássaro em encontrar as migalhas que estavam no chão.
- Parece que ele não enxerga!
E para seu espanto o pássaro veio para perto dele. Elias não se mexeu. O pássaro parecia querer sentir o menino. Subiu por seu braço, chegando até seu ombro. Elias permanecia duro de medo. E pensava: é agora vai me arrancar os olhos!
Mas o pássaro nada fez e catou as migalhas que ainda estavam em suas roupas. Elias percebeu a dificuldade e então o pássaro saiu voando para a árvore.
- Será mesmo o que estou pensando?
E era mesmo verdade. Voltando para a aldeia contaram para os pais o que havia passado. Resolveram montar uma arapuca e pegar o pássaro, já que parecia tão manso. Assim o fizeram no fim de semana. Trouxeram-no, e o mantiveram numa grande gaiola. Observaram-no tempo todo. Certo dia porém, o gato da casa chegou perto da gaiola. E o Urui não teve dúvidas: Furou-lhe um olho. O Urui sentiu a ameaça e defendeu-se. Como não enxerga bem, ataca para se defender.
Mesmo assim até hoje a Lenda existe, e muitas crianças e até pessoas tem receio de ir para a mata sem uma proteção para os olhos. Encontrar o pássaro Urui, credo Deus Pai! Coisas de aldeias, estórias de montanheses.
Marlene B. Cerviglieri
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
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