quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Uma lição de Ecologia (conto)

A sala estava quieta demais. Não vi sinais de nada que sugerisse algum tipo de movimento, pessoas, animais domésticos, especialmente insetos, nada. Era comum ter alguém na sala àquela hora, então imaginei que havia perdido a hora e já era muito tarde. Fiquei espantado quando olhei para o relógio de parede e vi que ainda era muito cedo. Algo muito estranho estava acontecendo ali. Fiquei estático no meu canto, à entrada da porta, sem fazer nenhum ruído; e aguçando meus ouvidos tentei captar algum barulho que me desse alguma pista do que podia estar acontecendo naquele local.
O silêncio era tanto que meus ouvidos podiam mesmo captar o zumbido do silêncio. Olhei para todos os lados e tudo permanecia igual, imóvel, nenhum sinal de vida. Se quisesse descobrir o que estava acontecendo, teria que explorar o local, mas sem fazer barulho. Senti minha pulsação aumentar e tive que respirar fundo várias vezes antes de resolver dar o primeiro passo, afinal, não tinha a menor idéia do que iria encontrar pela frente. Lembrei de uma história onde uma família inteira desaparecera enquanto dormiam. Lembro das especulações na época. Os jornais logo noticiaram que haviam sido seqüestrados por seres do espaço; outros afirmavam que eles teriam desaparecido, quando o filho menor abriu um livro secreto do pai que era arqueólogo, e sem saber o que estava fazendo pronunciou palavras mágicas, como resultado um portal de outra dimensão se abrira arrastando a todos para dentro.

Não sei o que disseram os jornais e revistas, talvez nem tenham dito nada, quando eles voltaram da viagem de férias, dizendo aos vizinhos que saíram à noite porque sua criança era sensível aos raios ultravioletas do sol. Lembro de minha mãe falando de uma lenda quando eu era criança. Dissera que, de tempos em tempos, casas que eram construídas sobre portais dimensionais, sumiam misteriosamente sem deixar vestígios. Bem pelo menos, a casa estava ali inteirinha. Pelo canto da parede, caminhei devagar, e a cada passo que dava prendia a respiração. Um pó branco, podia ser visto perto de um vaso de planta à entrada da outra sala, a sala de estar. Antes de prosseguir, numa velocidade surpreendente, minha imaginação começou a trabalhar mil idéias tentando acomodar uma delas que fosse a mais sensata para explicar o tal pó.

De repente podia até nem ser pó, pensei; podia ser outra coisa. Por um instante esqueci de todo resto e fiquei criando coisas à respeito daquela matéria branca com jeito de pó. Então tomei um grande susto; ouvi um ruído como um gemido, e depois um som que sugeria algo caindo no chão. Meu coração disparou de vez e senti um arrepio percorrendo todo o meu corpo. Meus olhos petrificados, impossibilitados de pestanejar, olhavam ansiosos para a entrada da sala de estar, pois a qualquer momento alguma coisa desconhecida poderia sair de lá. Agora não podia mais recuar, estava bem à vista e me faltavam forças para reagir e até para correr. Então tudo ficou quieto outra vez. Nunca pensei que minha imaginação fosse tão ágil em aperfeiçoar todos os meus medos; e logo que tentava desfazer alguma idéia escabrosa, ela logo colocava outra na fila.

Num momento de lucidez, não sei como, cheguei a pensar que ela, minha imaginação, era meu maior inimigo. Percebi então que era mesmo, pois sempre que eu removia um medo apelando para o bom senso, ela lançava novas e fantásticas teorias sobre quase todas as coisas capazes de me fazer medo. De real havia apenas a casa sem pessoas, e apenas aquele ruído, que como não se repetiu, podia mesmo ter sido minha imaginação que o criara, e mais nada. No entanto, ela, minha imaginação já me convencera várias vezes, num curto espaço de tempo, que minhas horas estavam contadas. Encostei-me na parede e me arrastei para mais próximo da entrada da sala de jantar por onde eu entrara. Não sei como fiz isso, e então comecei a sentir algo estranho. Era um cheiro como de uma flor, um cheiro meio adocicado, muito suave.

Os móveis então começaram a ficar tortos, deformados, e alguns com a aparência, como estivessem se derretendo. Tentei sair dali e vi que meus movimentos estavam afetados, meus músculos dormentes, e os móveis continuavam a derreter. Vi quando minha mãe entrou correndo na sala, usava uma coisa engraçada no rosto, parecia uma máscara contra gases, sua voz estava esquisita, como se estivesse brincando de imitar um pato. Ela me pegou pelo braço e me tirou da sala; mas antes me repreendeu severamente dizendo:

Menino, já não te disse que quando os moradores dedetizarem a casa, você deve ficar de fora? De que adianta entrar numa casa onde não existem insetos? É certo que nós as lagartixas somos vacinadas contra o DDT, mas ele provoca dores de barriga e urticária, e até alucinações. Ainda bem que voltei mais cedo do mercado, pois não me saía da cabeça que você estava por aqui...



Por:Alberto Grimm

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